7. ARTES E ESPETCULOS 8.5.13

1. MSICA  SHOWBIZ  CUBANA
2. CINEMA  FEITIO CONTRA O FEITICEIRO
3. ARTE  UM GIGANTE DISCRETO
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  FBULAS DO DESENGANO

1. MSICA  SHOWBIZ  CUBANA
Embora limitada pelo controle estatal, a msica de Cuba  vibrante e variada. Na ilha h jazz, salsa, pop, reggaeton  e at se ouvem algumas vozes dissidentes.
SRGIO MARTINS. DE HAVANA 

     Quem anda pelo centro de Havana presencia o que o escritor americano Ernest Hemingway definiu como "o espetculo das ruas". Nas ruas Neptuno (onde foi criado o ch-ch-ch), Obispo e arredores, o passante se encanta com a arquitetura de influncia espanhola e com a hospitalidade dos cubanos. Logo, porm, o que se julgava ser o calor humano dos habaneros se transforma em franco achaque: o estrangeiro se v assediado de todos os lados por ofertas de restaurantes, charutos, transporte (txi ou charrete)  e, em horas noturnas, companhia feminina. O tal espetculo das ruas ganhou as cores melanclicas da agonia econmica causada por dcadas de ditadura comunista. A msica que embala o show no poderia ser mais lugar-comum: em cada lobby de hotel, restaurante e esquina, h um artista solitrio ou uma banda a tocar Guantanamera ou Chan Chan. Essas apresentaes para consumo turstico, porm, no representam a msica cubana atual, cuja variedade e criatividade desafiam o marasmo social e econmico da ilha dos irmos Fidel e Raul Castro. O som de Cuba pode ser moderno, com suas fuses de ritmos afro-cubanos, rock e jazz  e a figura de ponta aqui  o cantor X Alfonso. Ou tradicional, como se ouve dos veteranos Omara Portuondo e Barbarito Torres. Os cubanos vibram nas festas de salsa e de reggaeton, e encontram vozes de contestao ao regime no hip-hop do grupo Los Aldeanos. 
     Nas ltimas dcadas, a projeo internacional da msica cubana deveu-se sobretudo ao projeto Buena Vista Social Club, de 1997. No se pode negar a orientao passadista da iniciativa: o guitarrista e produtor americano Ry Cooder e o msico e produtor cubano Juan de Marcos Gonzlez arregimentaram um time de coadjuvantes do showbiz local para gravar canes do incio do sculo XX. Com exceo de Ornara Portuondo, que foi grande nos anos 50 e manteve uma carreira consistente mesmo depois da revoluo de 1959, a maioria dos convidados havia abandonado a msica. Compay Segundo (o autor de Chan Chan, predileta dos artistas de rua de Havana) era celebrado como compositor mas quase no subia ao palco, e o crooner Ibrahim Ferrer ganhava a vida como engraxate. O disco Buena Vista Social Club vendeu mais de 8 milhes de cpias, foi tema de um documentrio dirigido pelo alemo Wim Wenders e transformou seus participantes em dolos mundiais.  boca pequena, eles reclamaram de nunca ter recebido os royalties da venda dos discos, mas tiveram um aumento significativo na oferta de shows fora do pas. O Brasil, nesta semana, recebe os remanescentes do Buena Vista para apresentaes em Porto Alegre, So Paulo. Rio de Janeiro e Natal. 
     "O Buena Vista quebrou o bloqueio dos Estados Unidos ao que vinha de Cuba", reconhece Roberto Carcassas, pianista e lder do grupo de rock Interactivo (de onde saiu Yusa, baixista e vocalista que tocou com o brasileiro Lenine). "Eu tenho uma banda de rock. Minhas msicas no tocam nas rdios latinas de Miami, nem meus clipes so exibidos nos programas latinos da MTV ou do VH1. Mas o Buena Vista, sim. E isso  bom para a msica do pas." Em Cuba, porm, outros artistas que no rezam pela cartilha da trova e do bolero se ressentem do sucesso do Buena Vista. "So canes que faziam sucesso antes da revoluo. No refletem o momento pelo qual passa a msica cubana", critica Carlos Alfonso, baixista e vocalista do Sntesis, grupo que mescla rock e ritmos afro-cubanos  e de onde saiu o pop star X Alfonso, filho de Carlos. 
     Cuba sempre foi uma terra de grandes pianistas e percussionistas. O showbiz local produziu improvisadores como Peruchin, mestre das descargas (jam sessions que duravam noite adentro), compositores e cantantes como Bola de Nieve ou lderes de orquestra como Bebo Valds (pai do tambm pianista Chucho Valds, criador do Irakere, expoente na fuso de jazz com ritmos afro-cubanos). A percusso cubana tornou-se referncia mundial a partir de 1947, quando o trompetista e bandleader americano Dizzy Gillespie se apaixonou pela batida de Chano Pozo, reputado como um dos criadores do latin jazz. "A percusso cubana tem um estilo prprio, moldado nos terrenos de santera", diz a baterista Yssy Garca, um dos novos nomes do jazz local. A singularidade do piano cubano deita razes, veja s, na Guerra Fria. Depois da revoluo de 1959, quando o pas se juntou ao bloco comunista, desenhou-se uma improvvel colaborao entre a msica popular cubana (ainda com notveis elementos do jazz americano, por mais que isso causasse desconforto s agncias oficiais de cultura) e a escola erudita da Europa Oriental. "Professores russos e poloneses davam aulas nos conservatrios. Com isso, conseguimos equilibrar a msica erudita com o natural senso de improvisao cubano", diz Roberto Fonseca, um dos melhores pianistas do jazz atual.
     O jazz local ainda hoje tem grandes pianistas, mas, rompida a ponte Moscou-Havana com o colapso do comunismo na Europa, a tradio aos poucos vai se diluindo. Os principais nomes da nova gerao so Aldo Lpez Gaviln. Harold Lpez-Nussa e Rember Duharte. Os dois ltimos participaram do projeto Ninety Miles, encontro musical da escola jazzstica cubana com a americana  representada pelo trompetista Christian Scott, pelo vibrafonista Stefon Harris e pelo saxofonista porto-riquenho David Snchez. "Foi timo participar do disco e perceber nossas diferenas. Acho que estamos muito presos em comparao com os americanos. Eles improvisam mais", diz Lpez-Nussa, que tambm mantm um duo ao lado do violonista brasileiro Swami Jr. (os dois tocaram juntos na banda de Omara Portuondo). 
     O jazz cubano hoje est restrito a um pblico de poder aquisitivo mais alto  leia-se: turistas estrangeiros , que tem condies de gastar at 50 dlares em clubes como o Jazz Caf e o La Zorra y El Cuervo, localizados nas regies mais abastadas de Havana. O pblico local se esbalda mesmo nas duas Casa de la Msica (no centro de Havana ou em Miramar) e no Salon Rojo, perto do Hotel Nacional, antigo reduto da mfia americana. Ali, os cubanos danam salsa e reggaeton, estilo importado de Porto Rico. Uma mistura de reggae eletrnico com outros ritmos caribenhos, o reggaeton cativa a juventude cubana com sua batida monocrdia e letras que falam basicamente de sexo. "Danar reggaeton  como fazer sexo na vertical", brinca Baby Lores, o reggaetoneiro nmero 1 de Cuba, declarado admirador de Fidel Castro e de Hugo Chvez. O novo gnero movimenta-se no precrio espao que, na ilha socialista, pode ser chamado de mercado musical. Um reggaetoneiro chega a reunir 1000 pessoas numa festa e cobra, por ingresso, 20 CUC (o "peso conversvel", com valor equivalente a 1 dlar e, para todos os fins, a atual moeda corrente na ilha). Por contraste, os jazzistas passam dificuldade na ilha. Nos clubes, quase todos geridos pelo estado, o cache regular para um show de jazz gira em torno de 100 CUC, a ser dividido por todos os msicos, pouco importando se no palco est um trio ou uma superbanda. A disparidade  visvel: Patry White, uma das poucas mulheres do reggaeton, roda pelas ruas de Havana com um carro importado novinho. Harold Lpez-Nussa, virtuose do piano, tem um velho e esbodegado Fiat 147. 
     A liberdade sexual em suas variadas modalidades costuma ser vista como uma bandeira da esquerda. A ditadura esquerdista de Cuba, no entanto, pratica o mais exacerbado puritanismo. Sites de pornografia so bloqueados na ilha (onde, de resto, o acesso  internet  sempre difcil). E o reggaeton  cujas letras so, sim, vulgares, mas no to explcitas quanto as do funk carioca  vive sob censura. Depois de um clipe em que o cantor El Chacal simulava um ato sexual, o Instituto Cubano da Msica, monstrengo burocrtico que controla o que se ouve no pas, baniu o reggaeton das rdios. H outras razes para a represso: ao lado das canes de duplo sentido, subsiste uma vertente mais politizada do reggaeton, representada por artistas como El Yonki, que denuncia as pssimas condies de vida sob o fracasso socialista. "Escuto El Yonki porque ele fala do aperto pelo qual estamos passando", afirma um barman do centro de Havana, que recebe escassos 10 CUC mensais. "No tenho dinheiro para pagar os mojitos que sirvo no bar", diz. 
     O xito do som porto-riquenho acabou por abafar o hip-hop, at ento o veculo primordial da crtica poltica na msica cubana. Captado pelos adolescentes cubanos das rdios de Miami, no incio da dcada de 90, o gnero americano ganhou um banho de esprito cubano, resultando em uma msica original que at chamou a ateno dos rappers americanos."Mos Def deu um show aqui, de graa, s para valorizar nosso movimento", conta o rapper Brebaje Man. A princpio, o governo cubano tratou o hip-hop com o desprezo que j devotava a outros gneros "imperialistas", como o jazz e o rock. Depois, partiu para a cooptao: o Instituto Cubano da Msica abriu um departamento de rap. No adiantou: o hip-hop  antissistema por excelncia. Silvito El Libre (filho de Silvio Rodriguez, cantor favorvel ao regime) e Los Aldeanos representam um canal de protesto na controlada vida sob o regime dos Castro. "Os mais velhos no simpatizam com Los Aldeanos, mas no quero nem saber. Entro em casa e coloco no volume mximo. Quero ver quem vai me proibir"', diz outro garom de Havana. A postura crtica cobra seu preo:  raro encontrar discos desses artistas nas lojas da cidade. "Texto muy complicado", explica o vendedor de uma loja localizada em frente ao hotel Habana Libre, que foi o quartel-general de Fidel Castro logo depois da revoluo. Os camelos da Rua Obispo, os principais fornecedores de CDs e MP3s de reggaeton, vendem discos de Los Aldeanos com mais cautela do que um traficante comercializa crack em uma metrpole brasileira. O fregus tem de pedir em voz baixa e voltar no dia seguinte para pegar o produto proibido. Os artistas do hip-hop se valem de um recurso antigo para driblar a censura: as letras cifradas. "Troco a palavra 'governo' por 'Deus' e sigo em frente", diz Brebaje Man. 
     Entre o franco adesismo de um Baby Lores e o confronto direto de Los Aldeanos, vm surgindo artistas com um discurso mais moderado. Um deles  X (pronuncia-se "equis") Alfonso, o maior pop star da ilha na atualidade. Em suas letras, Alfonso fala do bairro de periferia onde nasceu e exalta a luta do trabalhador cubano comum contra o aperto cotidiano   uma mistura cubana do heri de gueto,  la Bob Marley, com um bardo proletrio da estirpe de Bruce Springsteen. Nada de ataques abertos ao governo. X Alfonso assim escapa aos controles estatais cubanos  e ainda agrada aos exilados em Miami, notrio territrio anticastrista. 
     Nos ltimos anos, a ditadura cubana, no interesse da autopreservaco, tem promovido uma tmida abertura para o mercado internacional. H investimentos para aumentar o turismo na ilha  que chega a faturar 2 bilhes de dlares por ano  e j  permitido abrir restaurantes e casas de show privados. Tambm h maior boa vontade para liberar os artistas para turns fora do pas, ainda que o processo tenha entraves burocrticos. "Com Barack Obama no poder, ficou mais fcil viajar para os Estados Unidos", diz X Alfonso. Os artistas cubanos, porm, ainda se ressentem da falta de um mercado efetivo para suas criaes. Embora os camels de Havana j vendam msica em MP3, o msico cubano, restrito pelo atraso tecnolgico e pela censura  internet, ainda no embarcou plenamente na revoluo digital. Em condies de maior liberdade artstica e comercial, artistas como X Alfonso ou Yssy Garcia poderiam ter uma penetrao maior no mercado de msica hispnica. Ainda falta muito para que o espetculo das ruas de Cuba ganhe a estrada do mundo. 

ESTA DITADORA  MANSINHA
Patrcia Blanco, 28 anos, tentou se lanar, sem sucesso, como cantora pop. Trs anos atrs, j com o nome artstico de Patry White, embarcou na onda do reggaeton, ritmo importado de Porto Rico. "Faltava ao gnero uma artista como eu: linda, glamourosa e com coragem de falar dos mesmos assuntos de que falam os cantores homens", gaba-se. Patry ganhou o apelido de La Dictadora porque, segundo ela mesma admite,  muito mandona. "Mas com meus namorados eu sou mansinha." O primeiro single de sucesso de La Dictadora foi Chupi Chupi, de Osmani Garcia. A msica foi proibida nas rdios estatais cubanas por causa de suas insinuaes sexuais. "Podem proibir. Quanto mais vetarem nossas msicas, mais o povo correr atrs dos discos e shows", diz.

MESTRE DA VELHA GUARDA
Barbarito Torres, 57 anos, se diverte ao contar como entrou para o Buena Vista Social Club, projeto que em 1997 reuniu a velha guarda cubana: "Ry Cooder, o produtor do disco, me mostrou a gravao de um solo de alade e perguntou se eu conhecia o autor. Ora, o autor era eu". Cultor do alade, instrumento medieval, Torres  dos poucos remanescentes da formao original do Buena Vista, o que lhe d credenciais quando faz shows fora de Cuba. Tem uma vida confortvel para os padres da ilha, mas trabalha muito e sempre. Quando recebeu a reportagem de VEJA, estava s voltas com a reforma do casaro onde vive com mulher, filhos, nora, genro e netos. "Terei de fazer muitos shows para pagar tudo isso aqui", diz.

CRTICO, MAS MODERADO
O sonho de X Alfonso, 40 anos, era ser o Michael Jackson de Cuba. "Quando a televiso anunciava a estreia de um novo clipe dele, eu ficava o dia inteiro ansioso", lembra. Ex-integrante das bandas Sntesis (liderada por seu pai, o cantor e baixista Carlos Alfonso) e Estado de Animo, ele mistura, na carreira-solo, uma variedade grande de estilos: ritmos afro-cubanos, rock, msica clssica, hip-hop. O X do nome  uma idiossincrasia familiar: "A gente usa letras como nome. Minha me se chama L, e minha irm, M". Alfonso faz letras sociais, mas sem crtica poltica direta. "Seria muito fcil dizer que est tudo uma porcaria, sem apontar solues para os problemas", contemporiza. Embora j faa shows at em Miami, a msica ainda no  sua fonte de renda maior. "Ganho mais como cineasta e fotgrafo", diz.

O LTIMO CRENTE
Baby Lores  na vida civil, Yoandys Gonzlez  queria ser cantor de salsa, mas bandeou-se para o reggaeton porque era mais fcil: "Harmonicamente, o reggaeton  muito pobre. O difcil  criar uma batida e um rap que funcionem na pista de dana". Lores, 29, fez at uma cano inspirada no samba e nas mulheres do Brasil, Amor Brasileiro. Tambm  autor de Creo, inacreditvel homenagem a Fidel Castro. Tem uma tatuagem do ditador no brao (mas no quis exibi-la). Seus crticos dizem que a adeso ao regime  oportunista. Ele jura que o fervor socialista  autntico: "Como assim, oportunismo? Perdi vrios shows em Miami por causa da minha tatuagem".

PIANO AFRO-RUSSO
Ernan Lpez-Nussa e seu sobrinho Harold so remanescentes da tradio cubana de grandes pianistas. Ernan, 62, pertenceu a grupos de Jazz e msica afro-cubana. Seu prximo disco, Sacrilgio, casa folclore com msica erudita. "O estilo cubano tem esse lado percussivo, de raiz africana. Depois, ele foi sendo moldado pelos professores russos", diz. Harold, 29, comeou no piano clssico, passou para o jazz, acompanhou a cantora Ornara Portuondo e participou do Ninety Miles, projeto que reunia instrumentistas americanos e cubanos. Tem ainda um duo com o violonista brasileiro Swami Jr. Ele sofre com os entraves da burocracia socialista. "Para fazer shows fora do pas, temos de pedir autorizao at dois meses antes", reclama.

SALSA ELETRONICA
Yssy Garcia, 25,  filha de Bernardo Garcia, ex-baterista do Irakere, o principal grupo de fusion cubana nos anos 70. Ela comeou como percussionista de msica erudita, mas h uma dcada trocou os tmpanos pela bateria. "Quando meu pai voltou para casa de uma turn, tomou um susto ao me ver brincando na bateria dele", lembra. Yssy, que tambm toca percusso em  grupos de salsa (e se orgulha de ser da mesma vizinhana que Chano Pozo, mestre das congas cubanas), tem um estilo que combina a batida africana com a bateria dos jazzistas americanos. H trs anos, lidera um quinteto cujo repertrio vai do jazz ao eletrnico (h um DJ na formao). A principal dificuldade  reunir a banda. Todos tocam com diferentes artistas para se sustentar. 

HIP-HOP DISSIDENTE
Brebaje Man  o nome artstico de Etian Arnau Lizaire, 32 anos. Ex-membro do Explosin Suprema, um dos primeiros grupos de hip-hop da ilha, ele lamenta a atual supremacia do reggaeton, estilo que considera despolitizado. "O rap foi o gnero mais popular de Cuba, mesmo sem ter o apoio do governo", diz. Hoje o governo cubano tem uma entidade para cuidar do rap e do hip-hop, mas Brebaje no se alinha: "Eles no conhecem a cultura do hip-hop". O rapper equilibra a carreira como pode. Prensa os prprios CDs e os lana quando sobra dinheiro. No ano passado. Brebaje fez apresentaes em Miami. "No tinha muito pblico, mas tive o prazer de assistir a um jogo de basquete", conta. Ele no cogita exilar-se nos Estados Unidos, porm. "No falo ingls, e minhas razes esto aqui", explica.


2. CINEMA  FEITIO CONTRA O FEITICEIRO
Em Transe, de Danny Boyle, combina manipulao da memria, hipnose e roubo de arte  e tropea na pretenso.
ISABELA BOSCOV

     Ao mesmo tempo em que pintava seus reveladores retratos da realeza espanhola e executava os necessrios trabalhos de cunho religioso, nos anos 1790 o espanhol Francisco de Goya se dedicava, nos momentos s seus, a quadros introspectivos e misteriosos como Voo das Bruxas. A tela concluda em 1798, de pouco mais de 40 por 30 centmetros, mostra as trs entidades em questo sustentando entre si o corpo de um homem enquanto rodopiam acima do solo  no qual duas outras figuras se contorcem em aparente terror dessa viso diablica. Goya, um mestre que esteve consistentemente  frente de seu tempo, infundiu o quadro com uma perturbao que irrompe do inconsciente diretamente para a superfcie.  essa a sensao, a das coisas conhecidas mas enterradas na mente, que o diretor ingls Danny Boyle quer aproveitar em Em Transe (Trance, Inglaterra, 2013), desde sexta-feira em cartaz. No filme, James McAvoy  Simon. funcionrio de uma casa de leiles londrina na qual a tela de Goya ser posta  venda (uma impossibilidade: ela est bem guardada no Museu do Prado, em Madri). A despeito da segurana, ladres invadem o evento. Simon tenta impedi-los. Ganha uma coronhada na cabea, da qual desperta com amnsia. E com um problema: ele est envolvido no roubo, e seus comparsas, liderados pelo ameaador Franck (Vincent Cassel), no vo parar de tortur-lo at ele se lembrar onde escondeu a tela. 
     Quando unhas arrancadas uma a uma no refrescam a memria de Simon, o bando recorre a um expediente: uma psicloga especializada em hipnose. A doutora Elizabeth (Rosrio Dawson)  segura e competente. Mas, diz ela, ser impossvel chegar  lembrana almejada enquanto Simon temer que, uma vez divulgada a localizao da tela, sua vida deixe de ter valor. E assim se inicia um complicado jogo entre a terapeuta, os ladres e o amnsico, no qual ningum mostra as cartas que tem na mo  muito menos as que est escondendo na manga, e h muitas dessas. 
     Se h uma qualidade em comum nos filmes to diferentes entre si que Danny Boyle faz, esta  a propulso: em Trainsponing, Cova Rasa, Extermnio, Quem Quer Ser um Milionrio? ou 127 Horas, h sempre tanta coisa acontecendo  e filmada com tanta fluidez e originalidade  que o espectador  carregado por cima dos eventuais furos ou atalhos da narrativa. Aqui, contribuem para esse mpeto McAvoy, ator de sutileza e empatia, e Cassel, de eficaz presena fsica. O problema est na abrupta e inesperada queda de ritmo. Em histrias assim, quando o espectador comea a adivinhar onde afinal cairo as peas do quebra-cabea,  hora de encerrar o assunto. Mais uma reviravolta, para o diretor mostrar que est um passo  frente, e pronto. Boyle, porm, prolonga a resoluo at o ponto em que nem ela faz mais sentido, nem a plateia faz questo dela.  sada, o filme j se evaporou no ar  no qual some, sem rodopiar nem aterrorizar como o quadro que o inspirou.

FRENESI OLMPICO
Em filmes como Trainspotting (1996) e Quem Quer Ser um Milionrio? (2008), pelo qual ganhou o Oscar de direo, o ingls Danny Boyle demonstrou ser um investigador arguto dos desvos da conduta humana. Ele retoma esse veio na trama sobre roubo de arte e hipnose de Em Transe. Em entrevista ao editor Marcelo Marthe, o diretor de 56 anos falou do novo filme e da experincia de comandar a festa de abertura dos Jogos de Londres.

Como nasceu seu interesse pelo roubo de arte? 
Embora eu no seja colecionador, a obra dos grandes artistas sempre foi uma inspirao fundamental para meus filmes, do roteiro  fotografia. Alm disso, h uma mstica inegvel na audcia dos ladres de arte. Em meu filme, eu queria lanar o espectador num frenesi semelhante ao que os apaixonados por arte  bem como aqueles que farejam a oportunidade de ganhar dinheiro com ela  sentem diante de uma obra preciosa. Ainda que, no fundo, no se trate de um filme sobre obras roubadas, mas sobre o roubo da memria. 

O que motivou a escolha de uma tela do espanhol Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) como objeto de desejo dos criminosos? 
Goya foi no s o primeiro artista plstico moderno, mas o primeiro grande pintor da mente humana. Em sua obra, a realidade se funde com sonhos e pesadelos. At para o espectador atual,  chocante observar Voo das Bruxas, o quadro em questo. Julguei que a obra seria um passaporte perfeito para promover um salto mortal nos desvos da memria do personagem principal. Isso sem falar, claro, que Goya foi um pintor preocupado em expor as formas femininas em toda sua naturalidade e glria. Quem assistir ao filme perceber que isso tem uma dupla utilidade na trama. 

Houve algum tipo de imerso no mundo real das artes? 
Antes das filmagens, fui a um leilo para captar a atmosfera desses eventos. Um dos leiloeiros do filme, alis,  interpretado por um profissional veterano da Sotheby's, que nos ajudou na reproduo daquele ambiente. Ao acompanhar a disputa por um quadro de Chagall entre emissrios de compradores annimos, senti uma adrenalina brutal.  irnico pensar que bastava ter  mo 24 milhes de libras  o que no era o meu caso, juro  para levar aquela maravilha para casa. 

E de onde vem seu interesse por outro elemento central de Em Transe, a hipnose? 
Imaginar que algum pode ter a mente manipulada por meio dela mesma me despertava um misto de ceticismo e fascnio. Nas minhas pesquisas, contudo, descobri que entre 5% e 10% da populao mundial so, de fato, muito sugestionveis. Para essas pessoas, a hipnose pode ser uma ferramenta eficiente no tratamento de traumas sexuais e fobia de avio. O protagonista do filme  um sujeito com essa sensibilidade. Acredito que a fora da histria no esteja s nessa verossimilhana estatstica, mas tambm em um fator que s o cinema proporciona: a possibilidade de nos transportar para um terreno em que a fronteira entre realidade e iluso se dissipa. Nenhuma outra forma de entretenimento  to poderosa nesse sentido. 

O senhor j foi hipnotizado? 
Diretores de cinema so pessoas controladoras e obcecadas por detalhes prticos. Como representante tpico da categoria, eu nunca relaxaria a ponto de me deixar hipnotizar. Mas tentamos fazer isso com o elenco, a ttulo de imerso no tema. Vincent Cassel foi quem chegou mais perto de um transe hipntico, mas no nos revelou nenhum segredo picante. 

Foi duro dirigir a cerimnia de abertura da Olimpada de Londres aps o espetculo impecvel dos chineses em Pequim? 
Foi assustador. As aberturas dos Jogos Olmpicos vinham numa escalada espetacular desde os anos 80, e isso atingiu seu auge em Pequim. Mas a presso era to avassaladora que acabou tendo efeito liberador para mim: ao constatar que no havia jeito de competir com os chineses, eu me dei licena para investir na simplicidade e enfatizar conquistas do povo ingls que, visualmente, no tinham nada de espetacular  como nosso sistema pblico de sade. 


3. ARTE  UM GIGANTE DISCRETO
Uma exposio de seis sculos de pintura chinesa em So Paulo diz muito sobre a potncia asitica de ontem e hoje  da glria imperial  corrupo no regime comunista.
MARCELO MARTHE

     Missionrio na China do sculo XVI, o jesuta italiano Matteo Ricci encontrou uma forma safa de se adaptar  etiqueta local. Ricci guardava numa caixa os leques ricamente pintados em nanquim que ganhava de nobres e intelectuais chineses. Depois, empreendia uma reciclagem: presenteava outros figures com os mesmos leques. O religioso integrava-se, assim, a um ritual curioso aos olhos de um ocidental. Com suas pinturas e poemas inscritos sobre papel por meio de tcnica laboriosa, tais objetos atestavam o verniz cultural de quem os distribua como suvenires.  um belo presente para os brasileiros, decerto, a chance de ver leques daquele perodo  e outros tantos tesouros  a partir do sbado, dia 4, na Pinacoteca do Estado de So Paulo. Vindos de uma instituio francesa voltada  arte oriental, os 104 itens da mostra Seis Sculos de Pintura Chinesa no Museu Cernuschi cobrem da dinastia Ming (1368-1644) aos anos 1970  quando o hbito de presentear com obras de arte j passara a ter outra utilidade: virou um jeitinho de dissimular o pagamento de propina aos burocratas corruptos na China comunista. 
     No momento em que os primeiros ocidentais  como o jesuta Ricci  tiveram contato com a China, a pintura atendia a fins bem diferentes nos dois lados do globo. Na Europa renascentista, a arte era feita para arrebatar multides nas igrejas. Os chineses eram mais intimistas, "A pintura se confundia com o refinamento da caligrafia e,  exceo bvia dos leques, as obras eram guardadas em rolos destinados  contemplao solitria de monges e poetas", diz o curador Eric Lefebvre. Os tons discretos e temas recorrentes, como as montanhas nevadas, traduziam seus ideais de elevao espiritual. 
     Por vias diretas ou tortuosas, porm, o contato com o Ocidente inoculou a certo vrus transformador. A evoluo da arte chinesa a partir do sculo XVI, alis,  a prova do efeito bumerangue que se estabelece com as trocas de ideias e influncias entre as naes. No perodo Ming, os japoneses copiavam a arte da China. Sculos depois, fascinados pela absoro da cultura ocidental no Japo, foi a vez de os chineses imitarem os vizinhos. Os chineses tambm foram direto  fonte: no incio do sculo XX, vrios pintores do pas viveram em Paris. Nus femininos influenciados pelas odaliscas de Matisse  um f da arte oriental  causariam escndalo na China. Alguns desses artistas ajudaram a ampliar o acervo do Museu Cernuschi, cujo fundador  uma figura singular: o italiano Enrico Cernuschi foi ao mesmo tempo banqueiro e agitador. Chegou a ser preso por apoiar a Comuna de Paris, em 1871. Depois disso, formou sua coleo em viagem pela sia. 
     A figura mais curiosa iluminada pela exposio, no entanto,  Zhang Daqian (1899-1983). Em 2011, o chamado "Picasso chins" foi o artista mais valorizado em leiles no mundo: a venda de suas obras totalizou 507 milhes de dlares. Daqian tem uma ligao com o Brasil: em fuga dos horrores do regime maosta, viveu por quase vinte anos em Mogi das Cruzes, na Grande So Paulo. A mostra traz suas criaes originais, mas no contempla outra especialidade: a cpia perfeita. Suas verses de pinturas chinesas clssicas j alcanaram preos mais altos que os originais. Por serem fceis de confundir, as criaes de Daqian se prestaram bem ao esquema de subfaturamento usado para encobrir a distribuio de propinas sem chamar ateno em seu pas. Na China de ontem e hoje, a discrio  a alma do negcio. 


4. VEJA RECOMENDA
DVDs
UM AMERICANO EM ROMA (UN AMERICANO A ROMA, ITLIA, 1954. VERSTIL)
 Na figura de Nando Moriconi (Alberto Sordi), o diretor Steno traou um retrato irnico da juventude italiana de classe mdia do ps-guerra: beirando os 30 anos, ele ainda mora com os pais no Trastevere, no trabalha, come a comida que a mamma prepara, sonha ser artista e est decidido a emigrar para os Estados Unidos. Na verdade,  obcecado por tudo o que  americano: veste bon de beisebol, quer danar como Gene Kelly e fala uma lngua macarrnica que acredita ser ingls. Essa sua mania o coloca em uma srie de confuses hilariantes, que do ao ator Alberto Sordi a oportunidade de revelar todo o seu talento humorstico  foi com este filme que ele se consagrou como uma das figuras mais importantes da comdia italiana. Steno foi parceiro constante do diretor Mrio Monicelli e, como ele, no integrava o neorrealismo, movimento que a partir de 1945 pregou a crtica social e congregou diretores como Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Roberto Rossellini. Mas este filme em preto e branco tem, sim, suas dvidas para com a esttica neorrealista. E at consegue ser mais mordaz que boa parte de suas produes, sem deixar de ser extremamente divertido.

E SE VIVSSEMOS TODOS JUNTOS? (ET SI ON VIVAIT TOUS ENSEMBLE?, FRANA/ALEMANHA, 2011. IMOVISION)
 Coisas terrveis acontecem quando se chega aos 70 anos. Um iracundo ativista poltico pode sofrer a humilhao de ser ignorado pela polcia durante uma manifestao de rua. Ou um mulherengo se v proibido de tomar Viagra devido a problemas cardacos. E uma senhora septuagenria pode muito bem ir  funerria e encomendar um caixo cor-de-rosa como quem vai a uma butique comprar a bolsa da moda. A exemplo do delicioso O Extico Hotel Marigold, esta crnica geracional prope um olhar meio terno, meio maroto sobre os abalos provocados pelo outono da vida. Amigos h mais de quatro dcadas, Jean (Guy Bedos) e sua mulher (Geraldine Chapim), Jeanne (Jane Fonda, enxutrrima) e seu marido (Pierre Richard), mais o solteiro Claude (Claude Blanchard), decidem dividir o mesmo teto  a bela e espaosa casa do primeiro casal  em lugar de um impessoal lar para idosos. Junta-se a eles um jovem passeador de ces (Daniel Brhl), e est completa a trupe de uma comdia oportuna para este momento em que discusses sobre as novas formas de famlia esto na ordem do dia.

LIVRO
PURO, DE ANDREW MILLER (TRADUO DE REGINA LYRA; BERTRAND BRASIL; 378 PGINAS; 44 REAIS)
 "A que altura voc acha que eles comearam a nos superar numericamente?", pergunta um ministro ao jovem engenheiro Jean-Baptiste Baratte  que no entende a indagao: quem nos superou numericamente? "Os mortos", esclarece o ministro. A conversa tem lugar no Palcio de Versalhes, em 1785, quatro anos antes da Revoluo Francesa. O ministro incumbe Baratte de uma tarefa ingrata: escavar e destruir o cemitrio de Ls Innocents, em Paris. O acmulo de cadveres no local compromete as condies sanitrias dos arredores  at o hlito de quem mora por l j comea a cheirar a podrido. Leitor entusiasmado de Voltaire, Baratte abraa a tarefa como uma misso iluminista: est combatendo a superstio, em prol de um novo mundo regido pela Razo. Mas a escavao, tarefa demorada e suja, no permite idealismo heroico. A certa altura, o doutor Guillotin, inventor do famoso instrumento de execuo, visita o cemitrio.  um dos prenncios da Revoluo que pontuam a narrativa carregada de simbolismo do ingls Andrew Miller. 

DISCO
LOS MOMENTOS, JULIETA VENEGAS (SONY)
 O sexto disco da cantora mexicana est sendo saudado como um retorno a seus tempos de musa do cenrio alternativo. Julieta iniciou a carreira prxima do rock porm, a partir de Si, de 2003, adocicou o tom de suas composies  o que aumentou consideravelmente sua popularidade, mas afastou fs de primeira hora. Los Momentos  mais desafiador, a comear pela faixa-ttulo, um tango que Julieta canta com a devida dramaticidade. Os teclados e os ritmos eletrnicos predominam, sem comprometer a latinidade da cantora, que tambm se vale de violes e acordeo. Como intrprete, ela supera qualquer diva do pop brasileiro atual. Sua voz  doce mas no infantil e, quando a composio assim exige, ela vai ao canto rasgado sem desafinar. Vuelve, dueto com a rapper chilena Anna Tijoux, e a dulcssima Te Vi so dois timos cartes de visita para apreciar seu Los Momentos.

CINEMA
O SONHO DE WADJDA (WADJDA, ARBIA SAUDITA/ALEMANHA, 2012. J EM CARTAZ)
 Wadjda  um exemplar tpico da garota em pr-adolescncia: adora msica pop e esmalte colorido, briga com a me, tenta burlar as regras na escola. No fosse ela saudita, esses comportamentos seriam tidos como fenmeno natural e passageiro. Numa das sociedades islmicas mais rigorosas do mundo, porm, Wadjda  um foco de insurreio a ser constantemente abafado. No que algum tenha sucesso na tentativa: na interpretao de Waad Mohammed, a menina  de um espirito e uma independncia irreprimveis. Nem passa pela sua cabea, por exemplo, sentir medo pela dupla afronta que est planejando: ganhar um concurso de rcita do Coro para, com o prmio, comprar uma bicicleta  que, como mulher, ela no deveria nem sonhar em ter. H aqui, de cara, um interesse sociolgico, j que o filme de Haifaa Al Mansour  o primeiro jamais dirigido por uma mulher saudita (no que haja muitos homens sauditas fazendo filmes; as salas de cinema so proibidas no pas). Mas Haifaa, de 38 anos, que s pde ir ao cinema nos emirados vizinhos, constri uma comdia dramtica vivaz e discreta, com olhar agudo para os ritmos do cotidiano. 


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA 
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA
5. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
6. Irresistvel  Sylvia Day. HAMELIN 
7. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS 
8. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 
9. O Destino do Tigre  Collen Houck. ARQUEIRO
10.   As Vantagens de Ser Invisvel  Stephen Chbosky. ROCCO 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
3. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
4. O Castelo de Papel Mery Del Priore. ROCCO
5. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
6. Sobre o Cu e a Terra  Jorge Berboglio e Abraham Skorka. PARALELA
7. 15 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO
8. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO
9. Assim Falou Zaratustra  Friedrich Nietzsche. COMPANHIA DAS LETRAS
10. Pequeno Segredo  Heloisa Schurmann. AGIR

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Metas que Desafiam  Mark Murphy. CLIO EDITORA
3. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
4. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
5. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6. No se Desespere!  Mario Sergio Cortella. VOZES 
7. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 
8. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
9. O Mtodo Dukan  Eu no Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
10. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 


6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  FBULAS DO DESENGANO
     Uma das passagens mais conhecidas de Dostoievski  a histria do Grande Inquisidor, relatada no livro Os Irmos Karamazov. O cenrio  Sevilha, nos tempos da Inquisio. Ainda na vspera, uma centena de hereges havia sido queimada, para maior glria de Deus, num soberbo auto de f. Eis que agora... quem aparece, caminhando suavemente, na mesma praa? Ele mesmo: Jesus! Estava escrito que um dia voltaria. Decidiu voltar, bem de acordo com seu conhecido gosto pelas estratgias de risco, num momento da histria em que os que se fizeram de donos de sua mensagem adotaram a poltica de silenciar pelas chamas os insubmissos, os desobedientes, os desviantes ou os considerados como tais. 
     A multido se aglomera diante dele. Vem um cego e pede: '"Senhor, cura-me". Um gesto, e o cego v. O povo rejubila-se, canta hosanas. No momento em que adentra a catedral, encontra o pequeno caixo de uma criana morta. A me se aproxima, entre lgrimas. "Ressuscita minha filha." Ele ordena  criana: "Levanta-te"'  e ela se levanta. Nesse momento, surge em cena o Grande Inquisidor.  um velho alto, de face seca e olhar no qual brilha um sinistro claro. Ele viu tudo: o cego  que agora enxerga, a criana que voltou  vida. Aponta o dedo para o autor dos milagres e ordena aos guardas: "Prendam esse homem". O preso  recolhido ao calabouo dos hereges.  noite, o Grande Inquisidor aparece na cela.  um homem muito ciente de seus deveres e de sua autoridade e por isso lhe comunica que, no dia seguinte, ser queimado. No d ao condenado nem o direito de palavra. Ordena-lhe: "No digas nada, cala-te. Que poderias tu dizer? No tens o direito de acrescentar uma s palavra ao que disseste outrora". 
     Dostoievski tinha em mente Jesus e os descaminhos de sua herana nas mos dos que dela se apropriaram. Uma moral expandida da fbula poderia incluir os grandes pensadores, os polticos, os economistas ou os artistas em nome dos quais seus seguidores, admiradores ou intrpretes haurem prestgio e autoridade. E se eles voltassem? Se Marx voltasse, ou Freud, ou Darwin? Como reagiriam os chefes de suas respectivas igrejas? Para ficar mais perto, e se Bolvar voltasse  Venezuela? Teria ele o direito de acrescentar alguma palavra ao que disse outrora? 
_____________________

     O escritor italiano Italo Svevo (1861-1928) deixou esboada uma histria, que afinal a morte o impediu de desenvolver, na qual um velho, ao preparar-se para dormir,  meia-noite, lembra que essa  a hora em que Mefistfeles costuma aparecer e propor seus famosos pactos. A esposa, na cama, j dorme placidamente. O velho deixa-se levar pelo devaneio e conclui que  sim, por que no?  de bom grado cederia a alma ao demnio. A questo : o que pedir em troca? Imagina Mefistfeles, satisfeito por ter amealhado mais um,  espera apenas de que ele declinasse o preo. O velho pensa, pensa, e no chega a uma concluso. Pedir de volta a juventude? Mas por qu, se ela  insensata e cruel, ainda que a velhice seja intolervel? A imortalidade? Por qu, se a vida  insuportvel, ainda que nos atormente a angstia da morte? O velho se d conta de que nada tem a pedir e, ao imaginar o embarao do Mefisto, diante de to surpreendente situao, pe-se a rir, e tanto que a mulher acorda. "Rindo, a esta hora", diz ela. " homem de sorte." 
     A fbula de Svevo  parecida com uma outra, de Monteiro Lobato, nesse grande livro que  Reinaes de Narizinho. Dona Aranha, exmia costureira, faz o vestido de baile com o qual Narizinho vai se apresentar  corte do Prncipe Escamado. O vestido fica to bonito que o espelho diante do qual a menina foi prov-lo arregala os olhos de espanto, e,  medida que so acrescentados os adereos, mais os arregala, e mais ainda, at que, de tanto se espantar, racha de alto a baixo. Era o sinal que Dona Aranha esperava desde que tinha nascido e, de menina que era, fora transformada em aranha por uma fada m. Ao mesmo tempo, uma fada boa lhe dera aquele espelho, prometendo que, no dia em que fizesse o vestido mais lindo do mundo, deixaria de ser aranha para ser o que quisesse. E agora? Dona Aranha pensa, pensa. Transformar-se em qu? Princesa? Sereia? Pensa, pensa, e desiste. "Acho melhor ficar no que sou. Estou acostumadssima." Tanto na fbula de Svevo quanto na de Lobato a magia  derrotada. Por isso so to saborosas.  uma delcia ver seres superpoderosos, como Mefistfeles ou as fadas, reduzidos  impotncia, diante de quem despreza os seus servios.


